sábado, 2 de junho de 2007

REALIDADES!

No outro dia no vestiário vesti a minha farda de um branco quase imaculado, coloquei as canetas, a lanterna para avaliar as pupilas no bolso e subi as escadas para a unidade de cuidados intensivos cirúrgicos de um qualquer hospital… durante a subida desejava para mim mesmo que a chefe de equipa não me atribuísse os doentes que estivessem num estado mais critico… mas o meu secreto pedido não se concretizou. O turno estava a decorrer com normalidade ou seja muito trabalho para poucos braços!
A hora das visitas havia chegado, o coração começou a bater mais forte, a respiração acelerou mas pouco.
- Senhor enfermeiro está ali a mulher do senhor Aníbal.
- Pode pedir para entrar se fizer o favor, obrigado! – Respondi eu respirando fundo e inconscientemente olhando para o tecto talvez pedindo ajuda…
Aníbal um homem na casa dos 30 anos pai de dois filhos pequenos, cujo infortúnio tinha sido pendurar o fio do estendal num 6º andar no dia do aniversário do filho mais novo que fazia 3 anos. Desequilibrou-se e caiu…
A mulher entrou receosa na unidade, é-lhe pedido que desinfecte as mãos e que se dirija para a cama do marido. Olhei para a senhora e fui apanhado de surpresa, ela estava grávida, devia estar de 7 meses… voltei a respirar fundo e cerrei os dentes, pois a revolta havia começado a invadir-me o espírito. A senhora de ar modesto de roupas simples caminhou em minha direcção, estendi-lhe a mão para a cumprimentar e soltei um sorriso sincero. A senhora respondeu da mesma maneira e perguntou logo de imediato.
- Senhor enfermeiro como está o meu marido! Sabe nós temos dois filhos e estamos à espera do 3º para breve e ele é o único que trabalha lá em casa, é que tenho uma deficiência nas pernas e ninguém me dá trabalho.
O marido encontrava-se deitado na cama, entubado porque estava a respirar de uma forma artificial, ou seja, estava ligado a um ventilador que o ajudava a respirar, mas o pior é que tinha estado todo o dia a perder massa encefálica pelos orifícios nasais e auditivos o que não é de todo um bom prognóstico. Uma revolta ainda maior começou a tomar conta de mim, como era possível alguém ser “castigado” desta forma? Por onde andava a justiça deste mundo… e Deus, por onde vagueava Ele?
- Senhor enfermeiro ele vai ficar bom? - Perguntou-me a mulher com os olhos a lacrimejar.
Cerrei os dentes com mais força ainda, para não deixar uma lágrima cair e roubar desta forma a esperança daquela mulher. Convidei-a a sentar-se e segurando-lhe nas mãos respondi. – O seu marido teve um acidente muito grave… ele vai sobreviver, mas… mas com certeza que vai ficar com sequelas, ou seja, vai ficar com limitações para o resto da vida, mas essas limitações podem ser reduzidas com reabilitação… compreende o que estou a dizer? – Perguntei com uma voz tranquila e empática.
- Sim estou a perceber senhor enfermeiro, está-me a dizer que ele não vai ser o mesmo mas que há esperança de que ele recupere alguma coisa… só espero que ele possa pegar no bebé ao colo…?!
Estava a ser difícil conter tanta revolta e tristeza, as lágrimas começaram a inundar-me os olhos, a voz custava-me a sair, o nó na garganta sufocava, sufocava cada vez mais… consegui engolir em seco e com a mão limpar os olhos. A senhora olhou para mim, abraçou-me, começou a chorar e disse. – Eu sei que vocês estão a fazer tudo o que podem, obrigado! - O abraço foi prolongado e terapêutico tanto para ela como para mim. A mulher pediu-me se podia ficar mais um pouco com o marido, a esse pedido respondi com um. – Não pode, deve. – E deixei-a sentada de mão dada com o marido.
Medianamente recomposto deste duro embate, a senhora auxiliar de acção médica informou-me que o pai e a mãe da menina Catarina estavam lá fora para a visitar… Respondi que sim, mas que desinfectassem as mãos antes de entrarem. O coração temporariamente tranquilizado por aquele abraço e pelas palavras de gratidão pelo nosso trabalho, recomeçava novamente a bater ainda mais forte… a Catarina uma menina de apenas 18 anos… segundo informação, estava um bonito dia e o namorado queria ir dar um passeio com ela. O pai da menina deu permissão. A filha mais velha que estava grávida de 8 meses verbalizou também ter vontade de ir com o casal de namorados. O pai assertivamente deu o seu consentimento, mas advertiu. – Tem cuidado pois levas as minhas duas filhas e o meu futuro neto?! Vai devagar, eu e a minha esposa seguimos atrás de vocês ok?
O rapaz acenou afirmativamente com a cabeça e lá seguiram… tudo decorria tranquilamente, quando o pior aconteceu… pensa-se que devido ao rebentamento de um pneu da frente do carro, este se despistou e caiu por uma ribanceira. Os pais que circulavam atrás atónitos com o sucedido telefonaram para o 112.
O rapaz saiu ileso, a irmã mais velha ficou paraplégica, conseguiu-se salvar o bebé, mas infelizmente a menina devido ao violento traumatismo craniano, encontrava-se em morte cerebral. Depois desta breve história que rapidamente me relembrei devido à presença dos pais na unidade… o nó sufocante na garganta voltou novamente a apertar, as questões voltaram a ser colocadas, onde está a justiça neste mundo? Porquê ela? Porquê tanta dor? E Deus, por onde vagueava Ele?
Os familiares cumpriram o pedido e desinfectaram as mãos antes de entrarem na unidade e com um olhar resignado cumprimentaram-me e dirigiram-se para a cama da sua menina que repousava num sono profundo. Quem olhava para ela tornava-se difícil acreditar que estava morta, cerebralmente morta. A sua face serena, simpática e juvenil apenas apresentava dois pequenos cortes. Um na face e outro na testa. Mas o mal não está visível, o seu cérebro, as suas funções cognitivas, a manutenção das suas funções básicas de vida estavam irremediavelmente perdidas… como é difícil pensarmos que com o imenso avanço da ciência e em especial ao nível da saúde, ainda hoje se pronunciem palavras como, para sempre, irremediavelmente, inevitavelmente, irreparavelmente…
A menina estava na lista para dadora de órgãos, ia amanhã cedo para o bloco operatório para dar os seus jovens e saudáveis órgãos, para que outros tenham uma 2ª oportunidade para enfrentar os por vezes traiçoeiros caminhos da vida.
O que mais custava neste cenário era ver a família fazer o luto de uma menina que tinha um aspecto tão saudável, tão calmo, tão jovial, mas que estava morta… qual o tamanho da dor daquela família? Era impossível quantificar, era incomensurável.
Quem cá trabalha as 24 horas à cabeceira do doente/utente, por muito que nos façamos de fortes (ou seja lá isso o que for), também nós temos pais, filhos, amigos, também nós sofremos e muito, muitas vezes devido ao sentimento de impotência para lutar contra esta vil personagem que se chama morte. Mas nada comparado com o sofrimento sentido pelas famílias.
O extenuante turno terminou, desci as escadas de volta ao vestiário, vesti a roupa de cidadão anónimo e olhando para o tecto disse baixinho. – Continuo a acreditar em Ti, amanhã gostava de dar só boas notícias, conto contigo…

quarta-feira, 30 de maio de 2007

O Caminho Insondado

No outro dia decidi ir passar uns dias longe de tudo e todos, pedi a uma amiga se me podia emprestar a casa dos pais, que fica algures perdida nas beiras.

Depois de já tarde almoçar, quis conhecer o sítio. Abri a porta e tinha dois caminhos possíveis o do lado esquerdo pelo qual tinha que passar pela povoação, ou, o da direita que parecia bem mais rústico e tentador. A vergonha e a vontade de estar sozinho, fizeram-me escolher o da direita, o caminho insondado e da solidão. O tempo apresentava-se nublado, escuro e ameaçava chuva, mas corajosamente vesti o meu velhinho casaco ensebado, respirei fundo e pensei, o casaco há-de me proteger.

Comecei a caminhar timidamente, observando a passagem que se apresentava em meu redor. A chuva começou a dar sinal de vida, pequenas gotas vinham dizer olá ao velhinho casaco. Encetei pelo caminho de cabras, estreito, austero e interessante. A vegetação verde embelezava o quadro, sendo que o rio Dão fazia de anfitrião.

Passada uma hora de algum esforço, a chuva começou a cair mais vigorosa, coloquei o capuz e apertei a gola para melhor me proteger. Passei por um moinho há muito abandonado e cansado de tanto trabalhar. Tinha um ar simpático e sólido, pareceu-me ouvir água a cair, andei mais um pouco e lá estava ela, uma bonita queda de água. Parei para contemplar a água a correr e pensei… porquê será que gostamos tanto de a ver? Será porque está sempre em movimento? Porque é livre e desimpedida? Ou porque nos faz relembrar a condição humana, ou seja, que a vida tal como a água, não pára e que ao contrário da água, tem um fim e que por isso devemos viver de uma forma intensa? A água conhece as entranhas dos montes e das montanhas, desce e passeia-se no rio pelos vales e encostas, e, termina no mar onde tem a possibilidade de conhecer o fundo deste. Ai espera que o sol a aqueça para ir laurear nas nuvens, que mais tarde ou mais cedo vai cair e irá fazer novamente a longa e bela viagem, sempre! Fecho os olhos e deixo-me ali ficar a escutar o envolvente som da água a deslizar por entre as pedras de granito.
Continuo a caminhada, digo raios e coriscos por me ter esquecido do cachimbo, era o sítio ideal para tranquilamente usufruir dele. Meto a mão ao bolso e encontro um cigarro perdido. Fumei-o debaixo duma nogueira, porque a chuva era algo intensa. Pensei em deitar a beata para o chão, mas fui assaltado por um pensamento… depois de cerca de duas horas e meia de caminho, o sítio era tão remoto, que os únicos vestígios da presença humana eram, o velho moinho abandonado e as minhas pegadas marcadas na terra molhada. Decidi guardar a beata no bolso e deita-lo num local mais apropriado.
Avançando ao longo do caminho, fui abordado por um aroma adocicado, intensificado pela humidade da chuva, não sei que árvore ou flor o produzia, mas bendita sejas. Fico chateado por ter fumado aquele cigarro perdido, pois impediu-me de usufruir o aroma na sua plenitude. Um dia tenho que deixar de fumar, confesso eu baixinho ao meu velhinho casaco.
A chuva começou a diminuir e acaba por cessar, decidi regressar. Ao longo do caminho vou matutando, quem me dera conhecer o nome de todas a flores e árvores que se atravessam à minha frente… mas para quê? O que interessa é que são belas e eu posso aprecia-las, é como a vida.
Chego ao ponto de partida com o coração cheio e satisfeito por ter escolhido o caminho anónimo e menos trilhado. Amanhã se me apetecer estar mais perto das pessoas, talvez vá pelo da esquerda… descalço as botas todas cobertas de lama, penduro o meu velhinho casaco ensebado, sorriu e desabafo - mais uma vez pude contar contigo amigo… até amanhã!

quinta-feira, 17 de maio de 2007

Cancro, maldito sejas!

Deitado no leito penso, relembro-me do dia em que te conheci, pele ebúrnea, sorriso contagiante, trato afável, de olhar vivo e inteligente… apaixonei-me de imediato! Bela história de amor… agora acamado neste cárcere, impotente para cuidar de mim, sondas para comer, sondas e mais sondas. Entras no quarto e sorris, eu já não consigo falar, já não consigo expressar o quanto gosto de ti.
A enfermeira pede licença e dá-me mais morfina, as dores acalmam… mas pouco. Não é tanto o corpo que me dói, é saber que ficou tanto por fazer, tanto por dizer… o já não conseguir acariciar-te, nem provar o doce e discreto sabor do batom de morango que tu sempre colocas.
Sinto que o final está próximo, sinto que a bela história de amor não vai ter um final feliz, pois a vida real é bem mais áspera… o cancro manhoso como só uma pessoa má sabe ser, esconde-se, camufla-se, foge, arquitecta mais um ataque, desgraçado e maldito sejas. Despedes-te desejando veres-me amanhã, mas já cá não vou estar, tenho cada vez mais dificuldade em respirar, em manter os olhos abertos, os sons esvanecem-se, a morte aproxima-se com passos cadenciados, sinto calafrios no corpo, fecho os olhos e imagino que estás deitada ao meu lado e tento balbuciar as palavras - não chores!

quarta-feira, 16 de maio de 2007

Murmúrios Incessantes

O corredor psiquiátrico afunilava qualquer esperança de fuga… os murmúrios incessantes, martelavam incansáveis a mente ansiosa e adulterada de João. Quero fugir, eles vêm ai - grita horripilantemente… Corrida desmedida, passada insegura, saliva voraz que goteja e se impregna na roupa, visão atroz do futuro. As vozes não deixam escapar ninguém. O enfermeiro observa a situação, João num acto de loucura atira-se a este, vendo nele um dos outros… prisma pervertido da nossa realidade, pois a sua é bem diferente e bem mais sofredora! Os dois caiem, os olhos de João só conseguem contemplar a liberdade para lá do corredor. Agarram-se, debatem-se… realidade contra ilusão, razão contra delírio, eis que João está perto do seu móbil. O enfermeiro em desvantagem tenta conte-lo pela robustez dos braços… mas o medo que se apoderara de João era superior. Os músculos destes dois homens confrontam-se… João consegue desprender-se e precipita-se violentamente contra as grades da janela com o objectivo de alcançar a fuga, uma, duas vezes… o enfermeiro cansado mas esperançado, faz uso do seu mais poderoso recurso, a palavra. Aquela mente possuída pela alienação, incapaz de distinguir aliado de adversário começa a ceder à palavra, à argumentação. João olha para trás, o suor ensopava a farda do enfermeiro, bem como pequenas pinceladas de sangue que escorriam da comissura labial. Este de braços abertos, expressa de uma forma firme mas gentil - não tenhas medo João, vou ajudar-te. Num momento de lucidez, deixa-se cair de joelhos, lágrimas vertem por entre as mãos, gotas que parecem perguntar, porquê, porquê? O enfermeiro avança, estende-lhe a mão e diz - anda, anda dormir!

domingo, 29 de abril de 2007

O Cachimbo


Peça bela e ímpar, 20 anos proporcionando momentos de deleite. Coloco o tabaco na fornalha, pressionando-o com o dedo, dedos esses que anseiam por te acariciar.
O fósforo acende-se e dá início ao afecto, o tabaco incendeia-se devagar, aumentando o calor dos corpos que ávidos se tocam em carícias por vezes animalescas.
Os lábios tocam ao de leve a boquilha quente pela qual se sorve a seiva da vida… o aroma doce do tabaco espalhado por todo o quarto confunde-se e cria juntamente com o odor corporal um perfume de vontades e anseios.
O toque liso e torneado do cachimbo, coxas e peitos moldados à mão de quem os acarinha, doce entrega, fatal ambição.
Degustando o tabaco, torno-me rei e servo do teu corpo. O cachimbo continua a queimar, a queimar lentamente, lentamente até se apagar por completo… agora repousa na mesinha de cabeceira, pronto e aguarda expectante por mais uma carícia, um toque, um beijo... uma palavra é pronunciada na protecção da semi-escuridão do quarto… amo-te e quero-te sempre!

sexta-feira, 16 de março de 2007

Hoje salvei uma vida... porquê é que não estou contente?!?


Enquanto fumava um cigarro e bebia um martini, pensei...
Hoje salvei uma vida... porquê é que não estou contente?!?
A única consolação é crer que consegui despertar os mais "novos" para a possibilidade de existirem mais do que dois caminhos, para a observação, para o questionamento, mas principalmente para a necessidade de se querer saber sempre mais e melhor...

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2007

A-mor-zi-nho


Escrevo, mas não sei porquê?!? Ou talvez saiba, talvez tenha mais consciência do que realmente penso e desejo.

Escrever é um arte! Abençoado aquele que tem o dom de "brincar" com as palavras. Abençoado aquele que consegue passar para o puro papel branco, os seus mais obscuros e secretos pensamentos. Abençoados aqueles que podem ler e entender aquilo que o bico da caneta escreve.

Senti uma vontade quase incontrolável de escrever. Mas o quê? Eu sei o quê?!? A vida? É ela a causadora, é sobre ela que eu escrevo.

No outro dia enquanto preparava o meu cachimbo olhei para uns livros algo desarrumados e para uns postais. Postais esses que se encontravam imóveis, ignorados, esquecidos. Alguns escritos há mais de 30 anos. Neles pôde ler juras de amor, troca de beijos e abraços, promessas de amor eterno. Senti amor entre duas pessoas que estavam longe uma da outra, mas que ambicionavam reduzir as distâncias. Palavras como meu amor, saudoso amor, minha querida... e muitas mais. Mas houve uma palavra que me fez estremecer, me fez tremer... não foi a palavra morte, abandono, nem mesmo adeus. Foi o conjunto de sílabas que constituem a palavra... Amorzinho! Se quiseres dizer esta palavra e a pronunciares lentamente, não poderás negar que ela está cheia de ternura, compreensão, amor, carinho e erotismo. E porque é que eu fiquei assim ao ler aquela palavra? Pois também eu a pronuncio, dando-lhe o devido significado. Estou ciente que aqueles que as escreveram no papel também lhe davam o devido valor. Mas passados 30 anos, as palavras são outras! Palavras mais rudez são proferidas. Atitudes incorrectas são tomadas e o respeito é quase abandonado. Talvez agora percebam o meu receio, o significado do meu temor. Tenho medo de me tornar em algo que renego. Tenho medo de nunca mais pronunciar esta palavra que tanta felicidade me proporciona... Amorzinho! O que leva duas pessoas que após 30 anos, tudo aquilo que escreveram no papel não passe de diluídas recordações?