
"Não temo a morte ou a dor! Temo uma jaula. Ficar atrás de umas grades até que o hábito e a velhice as aceitem e toda a hipótese de coragem fiquem para além de alcance ou desejo."
Senhor dos Anéis (As Duas Torres).
Passeando pelas ruas de Lisboa à noite penso, relembro-me, reflicto… em como Te quero.
No outro dia no vestiário vesti a minha farda de um branco quase imaculado, coloquei as canetas, a lanterna para avaliar as pupilas no bolso e subi as escadas para a unidade de cuidados intensivos cirúrgicos de um qualquer hospital… durante a subida desejava para mim mesmo que a chefe de equipa não me atribuísse os doentes que estivessem num estado mais critico… mas o meu secreto pedido não se concretizou. O turno estava a decorrer com normalidade ou seja muito trabalho para poucos braços!
No outro dia decidi ir passar uns dias longe de tudo e todos, pedi a uma amiga se me podia emprestar a casa dos pais, que fica algures perdida nas beiras.
Deitado no leito penso, relembro-me do dia em que te conheci, pele ebúrnea, sorriso contagiante, trato afável, de olhar vivo e inteligente… apaixonei-me de imediato! Bela história de amor… agora acamado neste cárcere, impotente para cuidar de mim, sondas para comer, sondas e mais sondas. Entras no quarto e sorris, eu já não consigo falar, já não consigo expressar o quanto gosto de ti.
O corredor psiquiátrico afunilava qualquer esperança de fuga… os murmúrios incessantes, martelavam incansáveis a mente ansiosa e adulterada de João. Quero fugir, eles vêm ai - grita horripilantemente… Corrida desmedida, passada insegura, saliva voraz que goteja e se impregna na roupa, visão atroz do futuro. As vozes não deixam escapar ninguém. O enfermeiro observa a situação, João num acto de loucura atira-se a este, vendo nele um dos outros… prisma pervertido da nossa realidade, pois a sua é bem diferente e bem mais sofredora! Os dois caiem, os olhos de João só conseguem contemplar a liberdade para lá do corredor. Agarram-se, debatem-se… realidade contra ilusão, razão contra delírio, eis que João está perto do seu móbil. O enfermeiro em desvantagem tenta conte-lo pela robustez dos braços… mas o medo que se apoderara de João era superior. Os músculos destes dois homens confrontam-se… João consegue desprender-se e precipita-se violentamente contra as grades da janela com o objectivo de alcançar a fuga, uma, duas vezes… o enfermeiro cansado mas esperançado, faz uso do seu mais poderoso recurso, a palavra. Aquela mente possuída pela alienação, incapaz de distinguir aliado de adversário começa a ceder à palavra, à argumentação. João olha para trás, o suor ensopava a farda do enfermeiro, bem como pequenas pinceladas de sangue que escorriam da comissura labial. Este de braços abertos, expressa de uma forma firme mas gentil - não tenhas medo João, vou ajudar-te. Num momento de lucidez, deixa-se cair de joelhos, lágrimas vertem por entre as mãos, gotas que parecem perguntar, porquê, porquê? O enfermeiro avança, estende-lhe a mão e diz - anda, anda dormir!
